Descobrir quais empresas monitoram a navegação do usuário ou coletam informações por meio de aplicativos móveis costuma ser uma tarefa quase impossível para quem não domina a arquitetura técnica da web. Embora esses dados sejam semipúblicos, eles costumam ficar dispersos e inacessíveis dentro dos ecossistemas das gigantes de publicidade. Para mudar esse cenário, uma nova plataforma gratuita chamada DecryptAds passou a cruzar e organizar dados do mercado de tecnologia de anúncios (adtech), facilitando a identificação imediata das entidades que rastreiam internautas no mundo inteiro.
A anatomia do rastreamento na web
O serviço opera realizando varreduras contínuas em arquivos que portais e aplicativos mantêm publicamente para indicar seus parceiros autorizados de publicidade. Esse catálogo inclui os arquivos ads.txt (parceiros autorizados em sites), app-ads.txt (parceiros em aplicativos móveis e smart TVs) e os registros sellers.json e buyers.json que expõem quem compra, vende e revende inventário de anúncios.
De acordo com Zach Edwards, diretor de pesquisa do projeto e especialista em inteligência de ameaças, o valor da plataforma está na capacidade de cruzar essas listas. Analisar um arquivo de forma isolada raramente revela irregularidades; os problemas de integridade na cadeia de suprimentos da publicidade aparecem no cruzamento das fontes, na replicação de declarações entre domínios suspeitos ou em desvios no fluxo de lances de anúncios.
Riscos geopolíticos e conflitos de interesse
A ferramenta também aborda a publicidade digital sob a ótica da segurança da informação. Ela sinaliza quando os parceiros comerciais de uma página estão sediados em regiões de alto risco cibernético, como Rússia e China ou em jurisdições financeiras estratégicas como Emirados Árabes Unidos Chipre e Panamá.
Em auditorias práticas, grandes portais exibem conexões com redes de alto risco. O portal esportivo ESPN, por exemplo, lista 143 parceiros e 19 corretoras de dados registradas, das quais metade coleta informações de geolocalização e algumas extraem impressões digitais de dispositivos e dados pessoais sensíveis. Entre os parceiros identificados constam operadoras vinculadas a bancos russos sob sanções internacionais, como o Alfa Bank, atuando por meio de empresas como a Between Digital.
A Between Digital, presente em milhares de sites no mundo todo, incluindo páginas voltadas ao setor de defesa dos Estados Unidos, frequentemente atua como publicadora e revendedora simultaneamente. Esse tipo de operação dupla cria conflitos de interesse, permitindo direcionar verbas publicitárias para infraestruturas próprias sem qualquer fiscalização externa.
Outro exemplo envolve o navegador Opera. Embora mantenha sede em Oslo, na Noruega, a companhia é controlada majoritariamente pela empresa chinesa Kunlun Tech desde 2016. Seu perfil de publicidade agrega dezenas de corretores de dados, incluindo entidades em território chinês, russo e nos Emirados Árabes Unidos.
Fazendas de IA, golpes e o perigo do malvertising
A expansão de sites descartáveis com conteúdos gerados por inteligência artificial, conhecidos como “fazendas de IA” ou slop tornou-se o terreno mais fértil para ataques de malvertising prática em que códigos maliciosos e golpes de phishing são inseridos em peças publicitárias. Diferente dos grandes portais, essas páginas de baixa qualidade não investem em ferramentas de proteção, abrindo caminho para malwares sem clique (zero-click).
Casos recentes demonstram como redes inteiras operam de forma coordenada. Aparelhos de TV box ilegais adulterados chegam a simular acessos de celulares falsos para clicar em anúncios dentro de redes de blogs automatizados criados pelos mesmos operadores, alimentando fraudes de faturamento em massa.
o setor enfrenta o problema das remoções silenciosas. Quando plataformas de anúncios detectam comportamentos suspeitos, costumam banir o intermediário sem emitir avisos públicos. O invasor simplesmente migra para outra rede. Para combater essa opacidade, o DecryptAds monitora e indexa feeds dessas exclusões, permitindo que analistas antecipem brechas.
Como os usuários podem reforçar sua proteção
Para se defender contra a vigilância em massa e potenciais fraudes publicitárias, a postura mais recomendada por profissionais de cibersegurança é o bloqueio abrangente de anúncios e rastreadores.
Bloqueadores de navegador
Em computadores e navegadores compatíveis com dispositivos móveis, soluções leves e de código aberto como o uBlock Origin Lite e extensões como o Adblock Plus barram a maioria das conexões indesejadas. Usuários avançados podem recorrer a bloqueadores de scripts, embora eles possam interferir na exibição correta de algumas páginas.
Proteção no nível da rede local
Uma alternativa sólida para toda a residência é implementar filtragem de DNS na própria rede. Um microcomputador Raspberry Pi rodando o sistema Pi-hole funciona como um filtro de tráfego, impedindo requisições de anúncios antes que alcancem computadores, celulares ou televisores inteligentes conectados ao roteador.
Por fim, a atenção com aplicativos instalados deve ser redobrada. Plataformas móveis frequentemente exigem permissões invasivas e repassam dados de telemetria a corretores com muito mais facilidade do que os navegadores convencionais. Optar pelo acesso via navegador web e revisar as conexões de serviços públicos é um passo decisivo para preservar a privacidade digital.